Eu, cidadão deste Brasil, neste abril de tantas queimadas, desmatamento e poluição Amanheci com uma lucidez que me espanta e quero a ti me confessar: Quem foi que me concedeu todo esse poder pra te dizer onde tu e teu povo devem estar? A força de minha palavra, de minhas tantas letras escritas, De meu terno alinhado, de meu ar condicionado? Aonde te levou a minha louca sede de progresso (progresso?) Que injustas trocas te propus? O rio límpido pelo mar de mercúrio. As matas fartas de belezas tantas pelo desumano desmatamento. Os mistérios escondidos nas noites de lua pelos abafados gemidos da malária febre. Os dias tão belos de raios de sol pela fumaça pestilenta das queimadas. O ronco do trovão, que respeitas, pelo clamor ensurdecedor das serras. Como foi que minha ambição te transformou nessa Biafra/Etiópia? Como foi que te fiz escravo/ilhado nesta terra que era tua? Que sei eu de tuas dores, de tuas mazelas, De teus ódios, de teus amores, De tuas maldades, de tuas verdades, De tuas ambições, de tuas verdadeiras crenças, De teus medos? Eu te impus os meus. Não te sei dócil Não te sei santo Não te sei herói Então, não te soube humano. Eu que condeno Hitler te fiz prisioneiro de minha própria Auschwitz. Degradado, Prostituído, Embebedado, Aculturado. Eu, cidadão deste Brasil, te submeti à minha própria soberania. Porque sou eu quem sabe o que mereces. Quanto mereces. Onde mereces. Porque sou eu, senhor das letras, quem reescreve as leis de teu povo, De tua raça, De tua gente. Mas, hoje, eu cidadão deste Brasil, neste abril de tantas queimadas, desmatamentos e poluição, Amanheci com uma lucidez que me espanta e necessito, apenas e simplesmente, Te pedir PERDÃO.
LUIZA BUENO
Itapevi,abril de 1998
"mas os que esperam no SENHOR renovam as suas forças,
sobem com asas como águias, correm e não se cansam,