Olhar índio

Quero discorrer um pouco sobre um tema que me apaixona: o Índio; mais precisamente

 um povo indígena com o qual tive uma curta, porém profunda convivência:

o povo do Alto Xingu. Nele descobri uma nação indí­gena preservada na pureza

 de sua cultura e no orgulho de sua raça, até os dias de hoje.

Mas a história poderia não ter acontecido assim. Poderiam quase todos estar dizimados

 e seus remanescentes perambulando, sem suas terras, sem seu passado, simples mendigos,

 pálidas lembranças de seus ancestrais, ví­timas da intolerância e da mais famigerada e digo

sem exagero, FAMIGERADA ambição e cobiça pelas terras que outrora habitavam.

Entretanto, aconteceu o que não se poderia esperar naquele processo esmagador

 que vinha sendo a ocupação do Brasil Central, mas ACONTECEU.

Surgiram heróis... não daqueles que se vê com ares de galãs nos filmes de cinema e de TV.

Surgiram heróis de verdade; brotaram desta nossa terra, brasileira, do povo brasileiro

 e se embrenharam pelo sertão não com a missão, mas com a VONTADE

(a missão era exatamente abrir caminho a qualquer preço) de salvar os índios

do extermínio.

 Quantas vezes quase deram suas vidas pelos índios.

Não procuravam riquezas nem benefício próprio. Queriam apenas... salvar os índios...

deixar que continuassem... índios.

Eram os irmãos Cláudio, Leonardo e Orlando Villas Boas.

Graças a eles, hoje existe o Parque Nacional do Xingu onde os índios ainda podem levar

 a vida da maneira que seus antepassados o fizeram. Não por muito mais tempo, é verdade,

 mas terem chegado até os dias de hoje é praticamente um milagre. Espremido

pelas madeireiras e pela pecuária, está o Xingu, como a ele se referem seus habitantes.

Verde, todo verde... plenamente preservado pela mais avançada tecnologia de

conservação ambiental de que se pode dispor: a total falta de tecnologia avançada.

Parece irônico, não é?

Mas que exemplos podemos citar em que o progresso tenha trazido benefícios à natureza?

Remediar os estragos que ele mesmo causara, isto é uma outra questão...

Pode ser que ao índio tenha faltado curiosidade ou que seu grau de insatisfação tenha sido

pequeno demais para que se sentisse impelido a buscar novas maneiras de viver.

Ou talvez porque para ele não existisse o problema da sobrevivência,

uma vez que a floresta nunca fora um ambiente inóspito, pelo contrário,

 nela achava tudo para sua subsistência.

Ele é um filho da floresta!

Então, o índio deixou tudo como estava... o índio xinguano entendeu que tinha ganhado

dos Villas Bôas um país e sabemos que não existe no mundo um país que tenha sido dado

 de presente aos seus indígenas, pelo contrário, tudo foi tomado deles

e eles desapareceram.

Então os índios viram as madeireiras derrubando a mata, o pecuarista derrubando

a mata e seus rios sendo intoxicados.

Eu, pessoalmente vi como estavam apreensivos frente a tanta devastação. Eu estive lá,

nas comemorações do Kuarup em homenagem ao Cacique Branco do Xingu,

Orlando Villas Bôas, que em dezembro de 2002 se foi para agora encontrar-se

com seus irmãos Leonardo, Cláudio e com outros tantos índios saudosos,

na Aldeia dos Antepassados.

Só quem estava lá naquela ocasião pôde ver o olhar índio, dizendo da sua preocupação

com as cabeceiras de seus rios sendo contaminadas pelas águas agonizantes do progresso,

das suas margens assoreadas pela erosão, do seu leito cada vez mais raso impedindo

 sua navegação - esta que é o elo de ligação mais rápido entre as aldeias -

e de seus peixes já começando a morrer. O rio Xingu e seus formadores estão contidos

 no Parque, mas ironicamente, as suas cabeceiras não estão. Isso é uma sentença de morte

 e seus verdugos, rapinantes, estão apenas deixando o tempo se encarregar do resto.

E a gente, que presenciou o apelo das lideranças indígenas, que viu aquele olhar, fica

pensando... aonde nos levará tanto progresso? Quanto tempo ainda para percebermos

que tudo estava aí e nós não vimos? Eu vi a resposta numa antiga canção

de Caetano Veloso que dizia:

 

...descerá o índio e as coisas que eu sei que ele dirá (...) surpreenderá a todos não por ser exótico, mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto, quando terá sido... o óbvio ...

 

RYSZARD POLSKI

23 de março de 2004

 

"mas os que esperam no SENHOR renovam as suas forças,

sobem com asas como águias, correm e não se cansam,

caminham e não se fatigam." (Isaías 40.31)

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